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segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Já gastamos as palavras pela rua ...









O sol madrugou cedo, tal como os nossos corpos se haviam habituado a estes dias vespertinos, era o dia do último adeus ao surpreendente e majestoso deserto que nos foi aproximando a cada grão de areia que por nós passava. Um último olhar pela janela para a cidade das rosas do deserto. A poeira levantada pelo Jeep (que de tanto uso já se consideraria ortopédico) deixava vislumbrar um caminho um pouco mais acidentado, um ar mais fresco, afinal estávamos finalmente a penetrar nos meandros do Atlas. Uma paragem no meio de uns rochedos, polvilhados de barraquinhas de “recuerdos” naquele planalto desolado, aparentemente o Atlas não recebia os seus convidados da melhor forma, até que o canto do olho repara naquele enorme buraco mesmo ali a uns metros dos nossos pés. Tamerza encheu-nos o espírito, dum pequeno fio de água naquela quase estéril terra formava-se uma pequena mas impressionante queda de água, que repousava numa lagoa que fluía por aquele mar de areia sabe Deus para que destinos. O Atlas não nos desapontaria, e com essa certeza guardada nos nossos peitos e nos cartões de memória da máquina fotográfica partimos…
A despedida do Sahara tinha de ser em grande, não nos podia decepcionar tinha de superar tudo aquilo que em poucos dias se consegue construir e que certamente o tempo não pode apagar. A estrada subia a cada metro cada vez mais tortuosa fazendo com que a imensidão deste deserto preenche-se a totalidade da nossa visão, dos nossos corações, que nos deixa a pensar como a ausência de tudo aquilo a que nos habituamos pode ser tão benéfica e do como quase nada se pode construir um quase tudo.
De cabeça ocupada nestas filosofias de sonhador compulsivo, nem dei pelo parar do Jeep entre uns quantos outros, mesmo de fronte a um enorme e maciço bloco de pedra cor de cobre. Não sabia onde estávamos, deixadas as recomendações de levar água e um par de ténis confortáveis e que nos viriam buscar dali por umas 2 horas. Havia algo por explorar. O caminho quase tão estreito pelos rochedos como o das cabras, contornava-os dando espaço ainda para uns vendedores que empunhavam pedras de quartzo e ametistas nas suas mãos. Nesse serpentear avistamos um riacho, uma palmeira, que se vão multiplicando à proporção dos nossos passos e se transformavam num luxuriante oásis de Montanha. A mandíbula desencaixou do maxilar, afinal o paraíso não fica nas Maldivas nem coisa assim, é ali mesmo no meio dos rochedos do deserto. Os riachos transformaram-se em quedas de águas ao longo da subida, das suas bacias repousavam lagoas de um azul tão intenso como o céu que as palmeiras quase cobriam e bem lá no alto contemplar toda esta beleza do nosso lado esquerdo e toda a imensidão do deserto do nosso lado direito surgiu como a catarse perfeita para tudo aquilo que havíamos vivido.
Na descida o Jeep esperávamos (hora de liga para o emprego e mandar 1 MMS para meter inveja) ainda nos aguardava a despedida das terras de Argel e o regresso ao ponto de partida seria feito de comboio, daquele a vapor cujo passo humano quase os consegue acompanhar. Passamos por túneis onde reinava o breu, paramos em locais daqueles que fazem lembrar as histórias bíblicas (o que não absteve de algumas mentes tirarem umas fotos à altura), uma paragem para meter carvão e muito, muito devagarinho chegamos ao destino. Era sexta-feira, o dia santo do Islamismo, estávamos na quarta cidade santa do Islão, o chamamento para a oração fluía pelo ar num tom quase ensurdecedor. Era o ponto final desta viagem, mas não o parágrafo travessão, ainda restavam três dias de praia e descanso. As despedidas foram duras, intensas polvilhadas por algumas lágrimas nos rostos dos nossos amigos espanhóis, este percurso havia terminado, o futuro havia sido lido nas palmas das nossas mãos, promessas de voltar ficaram no ar (e como promessa é dívida, uma já foi paga). Um último olhar para trás, um último adeus aos nossos amigos e o desejo de que tudo um dia seja tão profundo e intenso como aquilo que o Sahara nos proporcionou.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Rosas do Deserto aos sons de Belly Dance










O dia começava novamente vespertino, já com a fadiga de quem há alguns dias acorda a horas impróprias. O banho de água salobra num WC compartilhado por baratas não se mostra reparador e a roupa na mochila já ocupa mais espaço do que aquele que tinha quando a lá coloquei. Todos a bordo do Jeep já com os bancos moldados aos nossos traseiros e mais umas centenas de quilómetros pela frente.
Sophie anima o pessoal, no destino haveria um hotel com uma "piscina fantastica" mas até lá já saberiamos com o que contar... Areia. pensei que fosse areia, essa paisagem acolhedora e ao mesmo tempo distante que nos tinha vindo a acompanhar desde o inicio. Não me enganei, ela ali estava sera só abrir a janela para lhe sentir o odor poeirento, contudo bem lá no fundo perto da linha curva do horizonte desenhavam-se montanhas, iríamos entrar no Atlas a maior cordilheira de África.
Uma paragem num posto de comando e umas trocas de palavras em arabe com papeis a circular, assunto indecifrável, formalidades em dia e mais poeira pela frente. Uma barraca estava centrada no horizonte que parecia pairar sob as miragens nas quais competia com uma latrina ricamente decorada em tons Naïf, separadas por um mair de Rosas do Deserto "mais baratas que no carrefour"! Sejam bem vindos à Argélia, e ao maior lago do deserto do Sahara polvilhado por centenas de salinas de inumeras cores de tons pastel. Fotos da praxe e mais umas horinhas de viajem, afinal estavamos a caminho da maior cidade num osasis do deserto e da "maravilhosa piscina".
À chegada com os corpos suados de tanto calor, os olhos fixaram-se nesta bela cidade de cor beije, dos seus palacetes ricamente trabalhados em barro, dos seus palmeirais infindaveise realmente do hotel magnifico onde finalmente fomos alujados. Houve tempo para um almoço recompensador (não obstante dos nossos já queridos COUS-COUS) e uma tarde numa piscina enorme de água quente. Não vos direi o mal que faz óleo bronzeador às 14 horas em pleno deserto, certamente que acentuou drasticamente uma corzinha de pele.
O Sol estava a despedir-se de mais um dia e o calor abrasador dando lugar a uma brisa suave, era hora de um passeio a cavalo pelo palmeiral e descobrir toda uma riquesa ecológica que este pequeno ponto verde num deserto pode esconder. Não me esquecerei da variedade de frutos que se plantavam pelos caminhos, dos riachos que corriam sob névoas de insectos, das crianças a correr atraz dos cavalos e das suas carruagens mais que desconjuntadas e do cheiro pestilento que os pobres animais emanavam.
Anoiteceu, tempo para um banho rápido e uma roupa mais elegante, porque a noite prometia ser das de 1001. Era um palácio daqueles árabes como se vê nos filmes, com bailarinas da famosa dança do ventre serpenteando atraves dos convidados, umas baforadas em shishas e o cous-cous à espera de ser redigerido numa noite encantada e divertida.
Mas o corpo pedia mais, estava quente (de uns copinhos de vinho já a circular) e as mentes não estavam viradas apra dormir, memso que o corpo já reclamasse. O Licor de Hierbas entrou em cena, teimámos em dar aulas de português aos espanhois e dado o insucesso e o calor ja a pulsar nas veias porque não uma voltinha nos carrinhos dos bagageiros até à fabulosa piscina, como deus meteu tugas e espanhois no mundo?

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Camel (a)Trophy






A noite passou rápida e mal dormida, balançando entre o cansaço extremo da enorme viagem do dia anterior e a excitação do dia que se iria seguir. Por mais cobertores que se colocasse em cima nenhum parecia eficaz contra aquele gélido frio que caía na noite desértica, e rogando pragas a mim memso por não ter trazido o saco cama. Acordei cedo e derigi-me às latrinas bem longe da nossa tenda, que para meu espanto se encontravam impecavelmente limpas e maravilha - ÁGUA QUENTE?!! Os novos Tuaregues foram despertando e preparando-se para mais um grande e intenso dia. Comeu-se qualquer coisa ali mesmo ao lado dos Jeeps, uns bolos secos e um café deslavado (nada de substancial perante tão formidável ceia de Cous-Cous).
A imagem repetiu-se, saltámos para cima da viatura depois de acomodadas as mochilas e fomos buscar o restante do grupo a outro acampamento. As primeiras imagens do deserto começaram a ganhar cor, forma e cheiro. Um despertar magnifico, silencioso, grandioso. Sophie e os outros já nos aguardavam sob um acampamento soberbo num palmeiral luxuriante onde estavam dispostas tendas em volta de uma piscina simplesmente magnifica, sim era um cenário perfeito das 1001 noites. Houve ainda uns momentos de arrependimento por não termos escolhido aquele local, mas rapidamente suplantados pela nossa experiencia mais "castiça". Havia uma torre de barro bem alta ali no meio do acampamento, subimos apressadamente e lá no topo, de olhos arregalados estava ele pronto a ser contemplado na sua magnitude O Sahara! Não há palavras nem imagens que alguma vez expressem tais sentimentos de uma solidão tão intensa quanto reconfortante, de um silencio tão absoluto que faz de uma respiração mais acelerada um autentico turbilhão de sons.
Era hora de se fazer há estrada (se bem que não existia), havia uma surpresa à nossa espera que requeria umas calças fortes e boas doses de protector solar. Após 2 horas de caminho ali estava uma cáfila (para quem não sabe, é a famosa manada de camelos!) com os respectivos donos á espera dos traseiros de milhares de turistas loucos de se montarem em cima dos animais. Dá que pensar, o Camelo não é um animal pequeno, não havia celas nem estribos nem nada, uma manta em cima das bossas e seja o que Deus quiser! Não pude resistir à pergunta se o animal aguentava com o meu peso pluma e após exitação inicial lá saltei pa cima do bicho. Era o Tudo ou Nada! De vestes Tuaregues postas e perfumadas de "camelum" seguiu-se a aventura. Lá do alto daqueles mais de 2 metros de andar bamboleante a contemplação do deserto era cada vez mais impresionante, aquela areia tao fina quanto o pó que fica nas estantes do quarto parecia não ter fim, o calor ás 9 manha já ultrapassava os 40 graus e durante algumas horas errámos pelas dunas, não sem antes tentar conduzir o animal que teimoso e sem perceber nenhuma das várias linguas com que lhe falei andou numa correria desenfreada levando de reboque outro camelo.
De pernas e rabo assado de tanto bamboleio, fomos ver miragens e uns saltinhos do Jeep pelas dunas, ao menos os bancos eram mais macios, não havendo final de manhã melhor que aquele. Era tempo de almoço e por decisão mútua fomos par ao nosso hotel no meio do nada, um edificio de cor creme ali no meio das areias finas sem nenhum sinal de civilização por perto. o Almoço estava servido, COUS-COUS (não sei se já vos tinha falado) e uma tarde infindavel pela frente. Dormir estava fora de questão, o calor era enorme, e depois de uma sessão de acrobacias circenses descobri uma piscina!! A água era verde e cheia de mosquitos, mas o calor chamou mais forte e ninguem resistiu a mergulhar naquelas maravilhosas águas. Ainda hoje me pergunto se por ventura não seria aquilo a fossa do hotel!?
Nisto a tarde passou rápida, veio o jantar com mais um prato típico de cous-cous e a noite estrelada não antevinha nada de divertido para fazer. Rapidamente uma visitinha ao quarto partilhado com baratas para nos vestirmos há ocasião pois alguem havia posto musica árabe num radio-gravador. Num espétaculo decadente ao estilo de Parque Mayer dançámos e bebemos até não haver forças, ainda era cedo e porque não ir passar a noite ao deserto? O frio reinava novamente assim como o vento, não nos retendo naquela magnifica noite estralada por muito tempo. No regresso passámos no quarto dos nossos amigos espanhois, estavamos "bem contentes" e após uma degustação de licores o corpo pedia algo mais refrescante. A piscina estava memso ali á frente, os poucos hospedes do hotel dormiam, sim era isso mesmo, sem roupas, tal qual Adões e Evas entrámos na piscina com grande alarido e muito muito riso. O espetáculo decadente começava a chamar público e em menos de nada o bordo da piscina verde estava repelto de homens arabes com aquele sorriso de quem está a ver algo que não deve mas está a gostar imenso.
Como saímos de água? Não posso dizer, deixem ao critério da vossa imaginação.

Link: http://www.pansea.com/sp/ksar_infor.html




terça-feira, 28 de abril de 2009

Um Chá no Deserto .... O FILME






Na sequência de tão louca chegada ao desejado Deserto do Sahara não podia deixar de publicar o testemunho in vivo de tão apoteótica chegada. Prestem bem atenção no que diz tão digna interprete portuguesa da nossa lingua no Magreb na sua tentativa de apanhar o bicho, numa só palavra hilariante. Muito obrigado a todos o pelos comentáriose não deixem de comentar sempre que por cá passarem.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Um Chá no Deserto (entre o El Jem e o Fim do Mundo)










O primeiro dia da nossa longa jornada, começou brindado por repreenções do nosso gigantesco atraso de 15 minutos. Nem tempo para apresentações houve, foi chegar enfiar as mochilas no tejadilho do Jeep e pôr-nos ao caminho. Só com os animos menos carregados começamos a descortinar que aquela mulher toda tapada dos pés à cabeça, de luvas brancas e um véu seria a nossa intérprete, e que além do Crew Habibi os 2 Jeeps estavam já com outros ocupantes, Espanhois ??!!!
O grupo ficou dividido pela metade e durante umas 2 horas ninguem abriu boca dentro daquela viatura, meti os auriculares do MP3 nos ouvidos e fiquei a apreciar a paisagem que entrava pela janela com um cortinado vermelho escuro. Afinal isto não é muito diferente do Alentejo, pensei para mim mesmo, planicie sem fim pontilhada por algumas oliveiras e umas casinhas toscas que aos poucos se começaram a adensar. Disseram-nos então que estavamos em El Jem, um povoado no interior da Tunisia que em tempos muito longicuos era a Roma Africana, e que para além das ruinas do Coliseu (praticamente intacto) pouco mais haveria para ver. O Jeep parou sob a sombra daquela imponente construção, enorme, distinta quase aterradora, diziam os aldeões que aquele Coliseu era o segundo maior do mundo e melhor preservado que o romano (faltam 4 meses para tirar a limpo as verdades). Era impressionante, toda aquela majestosidade num só edificio com quase 3 mil anos, impossivel de conceber, ainda se encontrava quase intacto, o chão da arena todo preservado, as bancadas cheias de turistas sentados possivelmente à espera que os duelos tivessem inicio, não com feras como na antiguidade mas possivelmente de disparos de maquinas fotograficas (e se o jogo foi esse, certamente ganhei).
Partimos mais animados e decidimos fazer as primeiras compras, água, e descobrir a arte do regateio e de comprar mesmo aquilo que não queremos. Drigia-mo-nos para sul, ao encontro do tão ansiado Sahara, mas por ora iríamos parar nalguns pontos estratégicos "paradas técnicas", o que não tardou a acontecer numa cidade mais a sul, o nome varreu-se-me da memória mas a imagem de uma cultura diferente ia-se começando a montar, as cores dos mercados de especiarias com aquelas piramides de pó de todas as cores por milhares de barraquinhas começava a confirmar que sim, estava nas arábias!
O sol ia subindo nos céus e a temperatura nos Jeeps iam no seu expoente máximo, 7 pessoas em cada um, 14 no total rumo ao deserto ainda desconhecido e aterrador para todos como no primeiro dia em que soube, que era o maior deserto do mundo e vi as fotos num Atlas lá de casa. Parámos novamente no meio da estrada, íamos visitar as cavernas do povo Troglodita que eram escavadas na rocha para os protejer tanto dos rigores daquele clima como dos ataques inimigos. Entrou-se por um série de corredores que desenbocam num pátio central ao ar livre, uma senhora estava sentada num banco de barro enquanto lhe descobriamos os cantos à casa e teimámos em tirar uma foto com ela (como da para ver ficou magnifica). Fomos embora deixando algun dinares à senhora e sem antes dar umas festas ao camelo que tinha á porta, era hora do ALMOÇO. Entrou-se novamente numas cavernas para chegar a uma sala de refeições, serviram uns pasteis até que chegou o famoso COUS-COUS. A fome era negra e marchou tudo numa alegria mesmo a pesar do picante intenso. Rematados com um chá de menta e pinhões uns fadinhos à mistura e a falar com os espanhois como se de amigos de há muitos anos se tratasse, chegoua hora de ir pá cela e continuar a tour. Afinal não era assim tao mal, ainda tinham alcatrão.
Horas interminaveis sentados, dormiu-se com direito a roncos, dissemos disparates tipicos de quem está impaciente e nunca o caminho tinha fim. As casas iam rareando ate que desapareceram, as estradas ladeadas por calhaus não regalavam a vista nem dissipavam o cansaço. A interprete de nome Sophie discutia horas a fio com o motorista sem que ninguem entendesse uma palavrinha de árabe, foi então que parámos num planalto com uma vista soberba para um pequeno "pueblo" lá em baixo, a última imagem da palavra civilização que ficou nas nossas mentes. Daí em diante começava a aventura, o alcatrão acabava dando direito a uma estradinha de terra batida empoierada, coroada com distintas crateras, alguém atreveu-se a fazer a pergunta evitada: Quanto falta?, e a resposta temida saiu num espanhol perfeito, muito, umas 8 horas!!!
Horas interminaveis com paisagem monotona de montes de pedra, a cassete de musica arabe ja tinha rodado cerca de 10 vezes, já sabiamos as letras de cor. Nova parada técnica, desta feita para ver as Ghorfas, uns celeiros quase pré-históricos no meio de nenhures que haviam servido como cenário para A Guerra das Estrelas. Ainda hoje me pergunto como foi possivel montar um estudio de cinema ali, e quão mal haviam passado todos os figurrinos do filme dentro daqueles fatos debaixo de um calor de certamente passaria dos 40 graus.
- A próxima paragem é onde passaremos a noite! Disse a Sophie com a sensatez de querer animar um grupo menos energico que uma excursão de reformados. Saltamos pó Jeep, ouvimos novamente as mesmas cassetes e mais horas, horas, horas de caminho, agora nem estradinha existia, era o NADA. Soubemos então que já estavamos no deserto, o de pedra efectivamente, pois o de areia onde tanto ansiava chegar ainda era um pouco longe. O Sol começou a pôr-se, numa imagem tão intensa como reconfortante, que fotografia alguma conseguira reproduzir e o caminho continuava, sem marcas, sem estradas ou sinalização, íamos aos caprichos de quem nos conduzia.
Escureceu, num bréu quase aterrador e ao fim de 2 horas o Jeep parou. A Sophie e 2 espanholas sairam e dizendo que iriam acampar ali e o nosso acampamento era cerca de uma hora de distancia, no dia seguinte iriamos nos encontrar para seguir esta louca tour.
Finalmente livres e completamente loucos para desatinar, musica aos berros, todos os farois do Jeep acesos, ninguem a conduzir deixando o veiculo decidir o caminho que tomar. Paramos o motorista saiu a correr e voltou com 1 pano preto e largou aquilo em cima de nós. Que cena é esta?! Olha é um ouriço gigante e esta M*** pica. largamos o bixo dentro do Jeep saltamos para cima dos bancos para nao picar as pernas, alguem gritava que o animal já estava no motor ou nos pedais, e nesta balburdia dentro do Jeep chegamos ao nosso acampamento. Saltamos para fora do carro e devolveu-se o animal à natureza. Mas e o outro Jeep?????? Perdemos os espanhois. toca a entrar de novo no carro para os salvar e ao fim de algum tempo foram encontrados a mudar um pneu que se havia furado.
Grupo completo, hora de acampar e comer, ali mesmo no meio do deserto do Sahara. Azar dos azares, correndo o risco de não experimentar a maravilhosa cozinha do Magreb fomos brindados com um maravilhoso prato de COUS-COUS (abençoadas as sandes roubadas no hotel logo de manha cedo). Houve djumbés e chá ao relento, do calor infernal do dia deu lugar a um frio quase glaciar, as tendas eram uns cobertores pousados por cima de umas canas disposta num circulo quase quadrado. A Lua estava cheia, reflectia no chão fazendo sombras estranhas, as fogueiras haviam sido apagadas e de repente tinham desaparecido 2 membros do grupo. Instalou-se o medo, percorremos a área envolvente duas e tres vezes, perguntamos a uns homens se haviam visto passar 2 raparigas. NADA, com o coração aos pulos fomos para a tenda esperar, deitados a tremer de frio sem conseguir dormir esperamos horas (2 no total) até que as ovelhas tresmalhadas apareceram, tinham ido só ver a Lua ao Deserto!

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Um Chá no Deserto (em baixo de chuva)



O tempo passa por nós, tão rapidamente que era capaz de jurar que ainda há uns meses estava a tomar um chá no deserto! É neste contexto de um reviver saudosista que dou inicio ao meu pequeno mapa mundi que vou deleneando por estes tempos meio conturbados. Faz um ano precisamente amanhã que embarcamos para terras do Magreb. Éramos 5, os suficientes para caber dentro de um carro, os suficientes para que em número impar ninguem se sentisse a menos e acima de tudo 5 pessoas que mal se conheciam mas plenas de vontade de apanhar uns outros ares.

O destino não era o inicial, mas outros valores se levantaram mais alto e após muita pesquisa encontrámos aquilo que era mesmo o que necessitavamos, porque não um rali pelo Deserto do Sahara?! Sim é isso mesmo, vamos.

As mochilas estavam prontas, a papelada em dia e não tardou o dia zero desta tão louca e revigorante jornada. Eram só 3 horinhas de avião e estávamos a postos para a aventura, minguem nos contou que naquele dia 21 de Abril que chovia a cantaros o "supositório com asas" voasse tão mal, num excelente voo que mais parecia a maquina de lavar quando está a centrifugar. Felizmente aquela lata chegou ao inteira ao chão, mas que sorte era a nossa estava a chover no Magreb?!!!

Enfiaram-nos num autocarro e foram horas e mais horas em plena escuridão sem saber para onde nos levavam, hoje passado um ano ainda nos questionámos onde nos depositaram, o autocarro foi largando passageiros aqui e ali e os 5 (como nos livros de Uma Aventura) ficámos sozinhos bem la no fundo ate que se avistou um hotel onde se passou umas maravilhosas 3 horas de sono, não reparador.

A coisa parecia não estar a correr bem, estava frio, chovia cada vez com mais intensidade, o sono atacava com força e o senhor do hotel teimava em ver os passaportes e a preencher uma serie de papeis em francês e árabe, até que nos disse que nos viriam bucar pelas 6h45 da manha.

A noite passou rápido e assim que vi os raios de luz corri para a janela, e ali estava ele, não o deserto ainda não (afinal estavamos bem longe dele ainda), abri a janela e vi um sol luminoso que emergia do Mediterrâneo, uma espécia de augúrio positivo. Foi num ápice que a trupe se vestiu foi tomer o "petit-dejeuner" e ás 7 horas estávamos prontos para embarcar, e levar a primeira de muitas repreensões em francês/árabe/espanhol, afinal não era para estar ás 06h45?!

Aerobus ...



Cacilhas, Cais do Sodré, Carris nº 91 ... Santissima Trindade de todas as partidas de que já se regressou, das que vou e ainda não voltei, das que um dia talvez irei e quem sabe das partidas de que um dia não voltarei a regressar!
Partir para qualquer lugar sempre me deixou um estado de ansiedade que nunca soube muito bem explicar. Recordo-me dos tempo de escola primária onde nem dormia na excitação das vésperas dos famosos passeios, sim, mesmo aqueles até ao Jardim Zoológico.
Os anos passam assim como as visitas ao Zoo vão rareando, mas a citação mágica do "vamos a..." continua a deixar a sua marca, especialmente nas longas noites de véspera, e quanto mais vou, mais quero voltar a partir.
Viajar tornou-se então quase como uma necessidade humana básica como comer e respirar, assim numa espécie de doença psiquica em tons de obsessão-compulsão em partir, chegar a casa pleno de saudosismo de quem partiu e ao fim de algum tempo estar de novo de trouxa haviada para ir a algum lugar.
Já se passou quase 3 anos dos loucos tempos de universidade (sem bem que ainda nela continuo), dos verões longos, das festas a meio da semana e das responsabilidades tantas vezes deixadas para segundo plano, num paragrafo conclusivo e indibitavel do "logo se vê!". Começar a trabalhar não é facil como é de esperar, ma spor seu lado abre outras portas que até então nao conhecia; abre as portas da conta bancária para irmos viajar aqui ali e acolá sem ter de dar grandes explicações, nem andar numa roda viva de mealheiros, peditórios familiares, aniversários e natais de poupança. Como alguém aqui em casa diz "gastas o dinheiro todo", é verdade, pouco fica para contar a história mas remato o cliché com a tão já habitual explicação do antes pobre e culto do rico e burgenço. lol
E de conta bancária volta e meia vazia, de mochila cada viz mais carregada e a minha Fuji em punho, lá vou na famosa peregrinação da Santissima Trindade com destino ao Nosso Senhor da Portela para mais um carimbo na terceira via deste passaporte.